joãopereiradefendepazO Prof. Doutor João Pereira defende que a consolidação da paz em Moçambique deve ir além da assinatura de acordos políticos, traduzindo-se em segurança, confiança e oportunidades para as famílias e futuras gerações. Para o académico, a experiência do Acordo de Maputo deve servir de inspiração para a construção de uma sociedade em que nenhuma criança tenha de crescer marcada pela violência ou pelo medo de perder os seus familiares.

A reflexão foi apresentada durante o lançamento do livro From Maputo to the Mountain: Building Peace in Mozambique (De Maputo à Montanha: Construindo a Paz em Moçambique), da autoria de Mirko Manzoni e Neha Sanghrajka, realizado a 2 de Novembro, no Hotel Cardoso, em Maputo.

Na sua intervenção, o académico recorreu à imagem de uma porta que se abre para receber um familiar regressado a casa, recordando que, para muitas famílias moçambicanas, esse reencontro representou durante anos uma das maiores esperanças. A partir dessa imagem, destacou o significado humano da paz e a importância de reconhecer as experiências de quem sofreu directamente as consequências dos conflitos.

"Há uma cadeira vazia em muitas das nossas famílias. Nenhum acordo poderá devolver quem ali se sentava, mas podemos fazer com que uma criança cresça sem ter de guardar uma ausência igual", afirmou, sublinhando a responsabilidade colectiva de evitar que novas gerações enfrentem as mesmas perdas.

joãopereiradefendepaz1Para João Pereira, é precisamente nessa dimensão humana que reside o valor da obra, que reconstitui não apenas o percurso das negociações, mas também a paciência, a confiança e a capacidade de aproximação necessárias para superar divergências profundas. O livro permite, assim, compreender os esforços que tornaram possível o acordo e o seu significado para milhares de famílias moçambicanas.

Ao apresentar os autores, destacou o percurso do Embaixador Mirko Manzoni, diplomata suíço que exerceu funções como Embaixador da Suíça em Moçambique e Enviado Pessoal do Secretário-Geral das Nações Unidas para o país, bem como o contributo de Neha Sanghrajka para a facilitação do diálogo entre o Governo e a RENAMO. Segundo o académico, o trabalho de ambos ajudou a ultrapassar impasses e a sustentar a confiança necessária à conclusão das negociações.

Contudo, João Pereira salientou que a paz só ganha raízes quando chega efectivamente à vida das pessoas, incluindo as comunidades que procuram ser ouvidas e os jovens que necessitam de oportunidades para construir o seu futuro. Nesse sentido, defendeu que a responsabilidade de preservar os resultados alcançados deve ser partilhada pelas instituições, pela sociedade civil e pelos cidadãos.

O académico apelou igualmente à divulgação da obra nas escolas e universidades, considerando que o conhecimento da história do processo de paz pode ajudar os jovens a compreender o valor do diálogo, da reconciliação e das escolhas que aproximam ou dividem a sociedade.

"Que os nossos filhos encontrem neste livro a história de como construímos a paz e reconheçam nas suas próprias vidas o valor dessa conquista: a liberdade de crescer sem medo, de sonhar sem limites e de olhar para o outro com confiança", afirmou.

João Pereira expressou reconhecimento aos autores, às lideranças políticas e a todos os que contribuíram para o processo de paz, incluindo o povo suíço, pelo apoio prestado à mediação. Reiterou, contudo, que o maior legado das gerações actuais deverá ser uma paz suficientemente sólida para garantir às crianças moçambicanas um futuro de segurança e esperança.

O encontro foi organizado pelo Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), em parceria com o Gabinete do Antigo Presidente da República, com financiamento da Open Society Foundations (OSF), no âmbito do projecto Civilian Peace Architecture.

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