Mirko Manzoni defende que paz duradouraO Embaixador Mirko Manzoni, um dos mediadores do Acordo de Maputo, defende que a construção de uma paz duradoura depende da liderança nacional, da confiança entre as partes e da capacidade de manter o diálogo, mesmo perante profundas divergências. Para o diplomata, a experiência moçambicana demonstra que a paz não significa a ausência de diferenças, mas a capacidade de as resolver sem regressar à violência.

A reflexão foi partilhada durante o lançamento do livro From Maputo to the Mountain: Building Peace in Mozambique (De Maputo à Montanha: Construindo a Paz em Moçambique), da sua autoria e de Neha Sanghrajka, realizado a 2 de Novembro, no Hotel Cardoso, em Maputo. A obra recupera os bastidores das negociações que culminaram com a assinatura do Acordo de Maputo, em Agosto de 2019, e os desafios enfrentados na sua implementação.

Na sua intervenção, Manzoni identificou três factores determinantes para o sucesso do processo: a apropriação nacional, a discrição das negociações e a implementação gradual dos compromissos assumidos. Segundo explicou, a liderança directa do então Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, e dos dirigentes da RENAMO, Afonso Dhlakama e, posteriormente, Ossufo Momade, permitiu que as decisões fundamentais permanecessem nas mãos dos moçambicanos.

"A Suíça ofereceu os seus bons ofícios, mas fomos sempre convidados a um processo moçambicano. Nunca falámos em nome dos líderes. O nosso papel era criar espaço para eles", recordou, destacando a importância de uma mediação que respeitasse a autonomia e a responsabilidade das partes.

Mirko Manzoni defende que paz duradoura4Essa confiança, explicou, foi construída progressivamente, através de sucessivas deslocações entre Maputo e a Serra da Gorongosa, onde se encontrava a liderança da RENAMO. As viagens, frequentemente marcadas por estradas difíceis, longas caminhadas e condições adversas, tornaram-se parte essencial da aproximação entre as partes. Manzoni destacou, em particular, a decisão de Filipe Nyusi de se deslocar pessoalmente ao encontro de Afonso Dhlakama, considerando-a um gesto de coragem que ajudou a abrir caminho para a paz.

A opção por negociações discretas, conduzidas por uma pequena equipa de mediadores, foi igualmente importante para criar um ambiente de confiança. Ao mesmo tempo, as partes decidiram avançar com compromissos concretos antes da conclusão do acordo definitivo, incluindo medidas de cessar-fogo e o início do processo de desarmamento e desmobilização.

"Esperar por um acordo perfeito significaria esperar para sempre", afirmou Manzoni, explicando que cada avanço, mesmo parcial, criava condições para o passo seguinte.

O diplomata reconheceu, contudo, que o percurso esteve longe de ser linear. Recordou a morte de Afonso Dhlakama, a 3 de Maio de 2018, como um dos momentos mais difíceis da mediação, perante o risco de interrupção das negociações. Apesar disso, a confiança construída entre as partes permitiu dar continuidade ao processo, que culminou com a assinatura do Acordo de Maputo, a 6 de Agosto de 2019.

Para Manzoni, os resultados do acordo devem ser avaliados também pelo seu impacto na vida das pessoas. Nesse sentido, destacou o desarmamento e a desmobilização de 5.221 antigos combatentes da RENAMO e os esforços para apoiar a sua reintegração na vida civil. Segundo explicou, a implementação procurou colocar as pessoas no centro das decisões, levando os serviços directamente às antigas bases militares, em vez de exigir que os beneficiários se deslocassem até aos centros urbanos.

Ao reflectir sobre o futuro, o mediador sublinhou que os ensinamentos do Acordo de Maputo continuam relevantes para os desafios políticos e sociais do país, considerando o Diálogo Nacional Inclusivo, promovido pelo Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, mais uma expressão da aposta no diálogo como instrumento de resolução de divergências.

"A paz nunca está concluída. É uma luta contínua, é uma luta que nunca devemos deixar de travar", afirmou, defendendo que os próximos desafios exigirão a mesma paciência, capacidade de escuta e liderança nacional que marcaram o processo de Maputo.

Manzoni explicou ainda que o livro foi escrito para os moçambicanos, cuja resiliência aprendeu a admirar, mas também para partilhar com o mundo uma experiência de construção da paz assente na responsabilidade nacional. Ao anunciar que se prepara para uma nova missão, depois de 16 anos de trabalho em África, reafirmou a sua ligação pessoal a Moçambique.

A cerimónia de lançamento do livro foi organizada pelo Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), em parceria com o Gabinete do Antigo Presidente da República, com financiamento da Open Society Foundations (OSF), no âmbito do projecto Civilian Peace Architecture.

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